Medição de proteínas - MVCTECNO (Sta. Luzia)NEWSLETTER MOINHOS VERA CRUZ - 10/2000

A Rede Laminar de Glúten e sua Importância para o Pão.

Para a obtenção de massas, simplesmente misturamos uma série de ingredientes que são destinadas a tomar parte de um determinado produto final. Por exemplo, na produção de pães, esse processo de mistura de ingredientes inicia uma série de longas e complexas interações de diversos componentes, tais como água, amido, proteínas, lipídios, enzimas, sal, açúcares, fermento, agentes oxidantes e redutores, etc…. Durante a mistura esses ingredientes são colocados em contato através do trabalho mecânico, e finalmente irá resultar na massa. Duas pré-condições devem ser observadas para obtenção de uma massa com condições reológicas apropriadas: uma formulação aonde os ingredientes individuais devem estar balanceados; e uma distribuição homogênea desses através de toda a massa, ambos para permitir a formação de uma rede de glúten ideal.

Na produção de pães, além das duas condições mencionadas anteriormente, devemos lembrar ainda, que é o processo de mistura o responsável pelo desenvolvimento das proteínas do glúten em uma estrutura tri-dimensional, que determinará a plasticidade, elasticidade e viscosidade desejada à massa. Nas etapas de mistura, os efeitos mais significativos na primeira fase são a absorção de água pela farinha e a incorporação de oxigênio. Nas etapas subsequentes, várias reações complexas se iniciam, de natureza física, coloidal e bioquímicas, de forma que a massa se transforma em um sistema de um polímero viscoelástico.

A hidração das partículas da farinha é feita quando as moléculas de água entram em contato com os grupamentos reativos do amido, dextrinas, proteína e pentosanas. O tempo para que haja a hidratação depende de fatores como o tamanho e a característica vítrea das partículas, a intensidade da ação de mistura, a presença de ingredientes adicionados. A taxa de hidratação está diretamente relacionada ao tempo que a água leva para entrar em contato com cada uma das partículas. Estima-se que 45,5% da água seja retida pelo amido, 31,2 % pelas proteínas da farinha e 23,3 % pelas pentosanas. Grãos de amido intactos absorvem a metade de seu peso de água, enquanto que grãos danificados absorvem o dobro de seu peso de água. Igualmente, as proteínas absorvem o dobro de seu peso em água, e as pentosanas têm uma capacidade de absorção de cerca de 15 vezes seu peso em água.

Pode-se distinguir três etapas no processo de mistura. A primeira põe os vários ingredientes em íntimo contato e os dispersa em uma massa homogênea. No segundo estágio, temos a formação da massa propriamente. A ausência de consistência no segundo da segunda etapa coincide com a hidratação dos constituíntes da massa. A hidratação deve alcançar um certo estágio antes da massa poder tornar-se coesa e responder a ação de rompimento e agregação causado pelo processo de mistura. No último estágio, a massa atinge seu desenvolvimento máximo, aonde temos o desenvolvimento do glúten, que será necessário para a retenção do gás desprendido durante a fermentação, importante para produção de um volume e estrutura de miolo adequados.

As mudanças observadas na aparência da massa durante o estágio de desenvolvimento, se devem principalmente a alterações básicas nas caraterísticas de arranjo do glúten. No estágio inicial da mistura, o glúten se apresenta na massa como unidades isoladas. A medida que o trabalho mecânico continua e a massa se rompe e se forma, essas unidades começam a se agrupar formando faixas, que exibem uma estrutura laminar e a tendência a formarem filmes "finos" e extensivos. A massa é vista como um complexo sistema viscoelástico, que pode ser visualizada como uma rede tridimensional, formada pelas longas cadeias de proteínas ligadas por vários tipos de ligações químicas. Esses filmes laminares é o que denominamos de rede de glúten . Estes se estendem sobre as moléculas de amido, formando uma matrix contínua.

Assim, a principal exigência para formação de uma massa adequada, é que a farinha tenha uma quantidade de glúten suficiente para que a rede possa se espalhar sobre o amido adequadamente. Caso contrário, a massa resultante é fraca, o que resulta em perda de retenção de gás. Caso a quantidade de amido danificado seja também muito elevada, tanto a absorção de água como o tamanho de partículas serão aumentados. Neste caso, a rede laminar de glúten não só terá uma maior superfície de área de amido para cobrir, como também irá competir pela água para a absorção, resultando em uma massa de qualidade inferior. Por conseguinte, existe um nível permissível de amido danificado, que pode se expresso pela equação de Farrand: (% proteína)/6; isto é, uma farinha com conteúdo de 12 % de proteína poderia tolerar um nível de amido danificado de 24 %.

Usando microscopia eletrônica pode-se observar que uma massa de características ótimas, exibe uma matriz de glúten contínua. O excesso de mistura ("overmixing") leva a rede de glúten a perder essa estrutura contínua, com o aparecimento de vacúolos largos e estrutura laminar partidas. Pode-se observar, também, a estrutura laminar da rede de glúten formando um véu, aonde os grãos de amido estão embebidos. É essa matriz contínua a responsável pela retenção do gás durante a fermentação, é que é tão importante para a obtenção de produtos com características desejadas.

Maria Teresa Caldeira

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