Medição de proteínas - MVCTECNO (Sta. Luzia)NEWSLETTER MOINHOS VERA CRUZ - 07/2000

Diversividade de trigos
e tipificação de farinhas.


Ainda que para o leigo ou observador casual todas as farinhas sejam iguais, a qualidade da farinha é bastante diferente entre uma farinha que irá produzir um pão daquela que irá produzir um biscoito. A fonte dessa variabilidade está na matéria-prima básica - o trigo.

Os trigos de importância comercial - o trigo comum (Triticum aestivum), o tipo clube (T. compactum), e o trigo durum (T. durum) - são produto da hibridização natural de seus ancestrais. Acredita-se que houveram pelo menos duas etapas na sua domesticação . Atribui-se a espécie T. monococcum, de genoma diplóide, a origem da espécie. Sua hibridização com T. searsii levou a originar da espécie T.turgidum, já com genoma tetraplóide, e precurssor da espécie do trigo durum, cuja característica principal é a dureza do seu grão. É o trigo especialmente usado para produção de pastas, principalmente na Europa e EUA. A segunda hibridização da espécie T. turgidum com a espécie T. tauschi, gerou as espécies hexaplóides T.aestivum, espécie comercial mais cultivada e com características de qualidade bastante distintas entre seus diferentes cultivares, servindo à produção de uma ampla gama de produtos - pães, biscoitos, massas - e T.compactum, de caracterísiticas brandas, e cuja farinha destina-se à produção de bolos e biscotos.

Uma série de fatores contribui para as característica de uma massa, contudo o grande responsável pelas propriedades funcionais da massa são as proteínas do glúten. Cada proteína é produto de pelo menos um gene, sem nenhuma evidência de modificações pós-translacionais, exceto a formação de pontes dissulfeto. As proteínas do glúten foram classificadas em dois grupos: gliadinas, prolaminas de baixo peso molecular ~30.000, pobres em cisteína; e gluteninas, polímeros de alto peso molecular, > 10exp6, estabilizados pelas pontes dissulfeto, resultantes da ligação dos resíduos de cisteína. Devido a essas características, essas duas frações têm um significado funcional, aonde as gluteninas são responsáveis pela elasticidade do glúten, enquanto as gliadinas pelas caracterísiticas de viscosidade.

Essas propriedades, refletidas na massa de farinha e água, são cruciais para determinar a qualidade da farinha. A retenção do dióxido de carbono produzido pela fermentação das leveduras no processo de panificação é resultado direto da propriedade viscoelástica do glúten; a elasticidade excessiva limita a expansão do glúten e consequentemente o volume do pão, enquanto a elasticidade insuficiente não permite a retenção do dióxido de carbono pela rede de glúten. O balanço preciso nas propriedades viscoelásticas (propriedades reológicas) da massa é o fator essencial para determinação de seu uso. A presença de um glúten elástico é necessário tanto em farinhas de panificação, como nas destinadas à produção de pasta, enquanto que um glúten menos elástico é requerido em farinhas para bolo e biscoitos. Portanto, a natureza da qualidade da farinha está contida fortemente na qualidade do seu glúten.

A elasticidade é uma característica pouco usual das proteínas, e não há outros exemplos de proteínas elásticas encontradas em plantas. Estudos recentes mostram que um grupo de proteínas está particularmente envolvido com as propriedades de elasticidade. Essas proteínas são as subunidades de alto peso molecular da classe das gluteninas, encontradas em diferentes genótipos de trigos. A maior elasticidade encontrada nesses genótipos pode ser correlacionada ao maior número dessas subunidades presentes nos polímeros de glutenina. Outra variação observada em trigos com diferentes qualidades de panificação, foram variações no número e/ou estrutura dos alelos das subunidades de alto peso molecular desses genótipos.

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